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“Estamos a caminhar para o deserto cinegético”

“Estamos a caminhar para o deserto cinegético”
  • 31 de Outubro de 2014, 09:40

Jornal Nordeste (JN) – A caça é um recurso importante na região transmontana. Na sua opinião está a ser bem aproveitado?

Álvaro Barreira (AB) – Está a ser pessimamente aproveitado. Porque antes no distrito de Bragança nos fins-de-semana de caça as pensões estavam sempre esgotadas, vinham realmente muitos caçadores, e hoje nem sequer se nota a presença de caçadores.
A caça atravessa uma situação caótica e a prova de que vai mal é o número de caçadores que tiram licença que é cada vez menor. Em 2008/2009 tiraram licença 152 mil caçadores, quando já chegou a haver 300 mil caçadores, em 2009/2010 de 152 veio para 145 mil e tenho indicações de que no ano passado o número de licenças anda nas 120 mil, isto a nível nacional. Neste momento, o número de caçadores licenciados é menos de 50 por cento do que havia há muitos anos. Só para dar uma ideia do valor que tinha a caça em Bragança, eu cheguei a organizar montarias para os americanos que vinham propositadamente das bases que tinham na Alemanha para o Porto e vinham a Bragança para participarem em montarias.
E Bragança fez trabalhos na área da caça únicos, por exemplo fizemos um estudo sobre o lobo que foi único na Europa, fizemos um estudo sobre o corço que foi único na Península e hoje não só as estruturas dos caçadores, como as estruturas do Estado estão completamente definhadas.
A partir de 1996 as estruturas da caça começaram a decair. Bragança já chegou a ter 86 guardas, com brigadas de fiscalização em Bragança, Miranda do Douro, Mogadouro, Alfândega da Fé, em Mirandela.

JN – Houve um desinvestimento da parte do Governo no sector da caça?

AB – Houve. Como eu disse já chegámos a ter 86 guardas e neste momento guardas específicos da caça não existe nenhum. Vejamos o caso da Zona de Caça Nacional da Lombada, que nos dá uma noção perfeita do caos que existe neste momento. A Lombada já teve sete guardas residentes, três vigilantes que faziam campos de alimentação e uma brigada em Bragança, e neste momento não existe nada. E a Zona de Caça Nacional que podia realmente proporcionar um rendimento às populações, neste momento está num caos. Antes quando abriam concursos para matar veados na Lombada se havia dez vagas havia 20 concorrentes, metiam cunhas para poder vir, este ano abriram para cinco e apareceram apenas três interessados. No caso do veado só para se ter direito a iniciar o acto de caça paga na ordem dos mil euros e depois ainda paga de acordo com o animal que consegue abater. E a Lombada teve durante quatro anos o recorde nacional de veados, porque eram protegidos, neste momento eu tenho conhecimento que na Lombada se caça desordenadamente.

JN – Na sua opinião qual é a solução para revitalizar a Zona de Caça da Lombada?

AB – É muito simples, é pôr lá fiscalização, atribuir uma equipa de fiscalização só para a Lombada, e fazer campos de alimentação e campos de ordenamento.
Mas o essencial é a fiscalização, que não existe. Eu posso dizer que há bem pouco tempo fui abordado por um caçador para ir ver um troféu de caça de um veado e depois vim a saber que o abateu ilegalmente.
Neste momento, não há um serviço do Estado dedicado à caça especificamente, não há fiscalização, não há acções de fomento. A caça era uma das bandeiras do Nordeste Transmontano e neste momento não é. E, portanto, em termos de caça estamos a caminhar para o zero. Estamos a caminhar para o deserto cinegético, que era aquilo que eu não gostava que acontecesse.

(Ler artigo na íntegra na versão impressa do Jornal Nordeste)

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