“Todos os artistas têm levado uma imagem muito positiva”
Jornal Nordeste (JN) – O Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, em Bragança, foi inaugurado em Junho de 2008. Que balanço faz destes cerca de seis anos à frente deste equipamento cultural?
Jorge da Costa (JC) – O balanço é francamente positivo. Já por cá passaram cerca de 100 mil visitantes, o que é extraordinário para um museu da periferia. E, acima de tudo, é um centro que se tem vindo a impor a nível nacional e ibérico.
Penso que, neste momento, em Portugal, fora dos grandes centros urbanos, este é um espaço que se tem destacado pela imagem de qualidade, nomeadamente na programação que aqui tem vindo a ser apresentada. Foi uma preocupação desde sempre trazer artistas de referência da Arte Contemporânea Portuguesa, sejam artistas como Júlio Pomar, Julião Sarmento, Pedro Calapez, Alberto Carneiro ou Paula Rego, mas também artistas da nova geração, ou as grandes coleções de Arte Contemporânea. Tenho procurado trazer essa diversidade de gerações e de linguagens.
JN– Lançou recentemente um livro dedicado à pintora Graça Morais. Foi um trabalho longo, a obra da pintora transmontana que dá o nome a este centro também é vasta. Depois de concluída esta obra surge outra visão sobre a pintora Graça Morais?
JC – Sim, claro! Esta aventura começou já em 2006. A minha dedicação ao trabalho da pintora Graça Morais começou no mestrado em Arte Contemporânea, no Porto. Esta dissertação foi, de facto, um aprofundar da sua obra. Confesso que pensei em desistir muitas vezes quando me deparei com a dimensão da obra a tratar em apenas 175 páginas. São quase 40 anos da carreira artística da pintora ali condensados. No entanto, foi um desafio que me deixou muito feliz, até porque, neste momento, é o livro mais completo sobre a obra desta artista.
JN– Quais são as maiores dificuldades para trazer os artistas a Bragança? E quais são as principais opiniões de artistas que regista durante estes seis anos?
JC – As grandes dificuldades prendem-se, acima de tudo, com questões orçamentais. Temos vindo a trabalhar com poucos recursos. A gestão é dependente da “casa-mãe”, que é o Município de Bragança, e portanto os recursos financeiros e humanos não são muitos. Muitas exposições têm acontecido pela boa vontade e pela empatia com os próprios artistas. Mas todos os artistas têm levado daqui uma imagem muito positiva. Confesso que a arquitetura de Souto Moura se tem afirmado, neste campo, como uma mais-valia. Julião Sarmento, por exemplo, que é um dos artistas mais internacionais do nosso país, considerou este Centro de Arte um dos museus mais bonitos onde já expôs e ele já expôs no mundo inteiro! Isso é, para nós, um motivo de muito orgulho.
JN- A oferta do Centro de Arte Contemporânea não se resume só às exposições. As actividades educativas também são importantes e passam muitas vezes despercebidas. Este ano, o que é que está programado para os mais pequenos?
JC – O serviço educativo é, de facto, outra das grandes apostas do Centro de Arte, não só tendo em vista a formação de públicos, pois estamos a criar uma geração habituada a frequentar museus e a ver o museu como um espaço divertido, quase como um espaço da sua casa. Procuramos que as atividades estejam sempre relacionadas com cada exposição e adaptadas à idade dos públicos que frequentam este espaço, pois recebemos aqui crianças desde o pré-escolar até aos jovens do ensino superior. Paralelamente às visitas-jogo, às visitas guiadas, às visitas “pais e filhos” etc, temos também aqui um conjunto de oficinas e de outros cursos de formação que as escolas nos solicitam, porque não têm meios para o fazer. Temos tentado colmatar essas questões dentro das nossas possibilidades, mas é muito importante que o Centro ofereça essas atividades.
JN – Mais recente é o projecto do Centro de Fotografia Georges Dussaud, no Auditório Paulo Quintela. É um espaço mais desconhecido também. O que é que os visitantes podem encontrar neste espaço?
JC – É um espaço ainda muito recente, tem apenas dois anos, e resulta da doação de um espólio extraordinário que fotógrafo francês Georges Dussaud quis deixar em Bragança. Neste momento o acervo é constituído por cerca de 200 fotografias. É um acervo único, que tem muito a ver com Trás-os-Montes, com a identidade desta região e das suas gentes, ainda que nas suas fotografias surjam também outras regiões do país. É uma coleção extraordinária e surpreendente e que gostaríamos que fosse ainda mais conhecida e mais visitada.