Luís Veiga é “puro aço”
Licenciado em Engenharia Biomédica e Mestrando em Biomedicina Molecular, Veiga começou a praticar musculação aos 17 anos mas só há quatro é que se iniciou na competição. Veiga lamenta a falta de reconhecimento por parte da cidade em relação ao seu percurso no culturismo mas agradece os poucos apoios que tem tido.
Jornal Nordeste (JN) – Pode-se dizer que este ano está a correr muito bem ao Luís, três títulos e um 12º lugar no Campeonato da Europa. Esperava uma época tão bem sucedida?
Luís Veiga (LV) – Confesso que não estou completamente satisfeito, mas tendo em conta o ano difícil de 2014, em que tive uma lesão que me comprometeu durante sete meses, é muito bom alcançar estas classificações e títulos em 2015.
JN – O lugar conseguido no europeu ficou aquém das expectativas ou nem por isso?
LV – Para dizer a verdade ficou, pois quero sempre mais. O nível estava altíssimo, comenta-se inclusive que nunca esteve tão alto como este ano nas categorias de Culturismo Clássico, onde competi, mesmo assim poderia ter ficado uns postos acima na classificação final. No entanto, a experiência foi positiva e se Deus quiser estarei de volta com mais argumentos para me impor e melhorar a classificação.
JN – Que critério ou que características são tidas em conta pelo júri de uma prova para avaliar um culturista?
LV – É feita uma inspecção e apreciação completa do atleta como um todo, fazendo-se um exame geral ao corpo em que se valoriza uma maior quantidade de massa muscular, aliada a densidade e definição muscular, assim como o equilíbrio na sua evolução. Favorecem-se os concorrentes com físicos harmoniosos, simétricos, proporcionais e clássicos, valorizando também a boa postura, a disposição atlética e a estrutura harmónica correcta.
JN – O Luís leva o nome de Bragança e também de Portugal a outras paragens. Sente todo o seu esforço e dedicação ao culturismo valorizado?
LV – É uma questão delicada, pois a nível nacional considero que o meu trabalho como atleta é mais valorizado e reconhecido do que propriamente a nível local, na terra onde habito. Se falarmos a nível de apoios, a minha presença no Europeu deste ano foi possível devido a ajudas que obtive de algumas empresas de amigos, dos meus pais e devido a um movimento de angariação de fundos criado pelo grupo Gymnaescola do Instituto Politécnico de Bragança, onde a maioria dos organizadores e pessoas que apoiaram o movimento não são brigantinos.
Foi pedido inclusive, e pela segunda vez (anteriormente em 2013 onde também consegui três títulos a nível nacional e um ibérico, também tinha feito um pedido) apoio à Câmara Municipal de Bragança, única e exclusivamente para me ajudarem na ida ao Europeu pois requer um elevado investimento a nível de inscrição e deslocações, e foi novamente negado/ignorado.
JN – Qual é o feedback das pessoas? Por exemplo, nota que em Bragança os brigantinos sabem que a cidade tem um campeão nacional de culturismo?
LV – No geral sim, as pessoas que frequentam ginásios e praticam musculação sabem. As redes socias encarregam-se de informar o resto das pessoas que poderia não saber.
JN – O que é afinal o culturismo?
LV – Como o próprio nome indica é o culto do corpo. É um desporto, a arte de esculpir o nosso próprio corpo utilizando para isso halteres, pesos e/ou máquinas de ginásio. É a busca de um corpo musculado, equilibrado e de formas harmoniosas. É um estilo de vida, pois exige mais do que fazer desporto, exige praticar musculação, mas sobretudo ter uma vida saudável, sem vícios, com horários bem definidos de tempos de treino, alimentação regrada e tempos de descanso bem definidos. Só conjugando tudo isto podemos tornar-nos culturistas.
JN – E o clássico? O que tem de diferente? Já agora explique-nos um pouco em que categorias se divide o culturismo.
LV – O Culturismo de competição tem duas classes: Culturismo Clássico e Culturismo.
O Culturismo é uma modalidade competitiva dividida em categorias de pesos apenas, enquanto o Culturismo Clássico tem limites de peso consoante a altura do atleta, e as categorias são divididas mediante essa altura e limite de peso.
O clássico é uma modalidade para físicos musculados mais harmoniosos.
JN – Exige com certeza muito treino e cuidados alimentares …
LV – Sim, a alimentação é a base de tudo. É necessário comer aquilo que o corpo precisa, nas quantidades que precisa e nos “timings” que precisa. Como é logico em fases mais afastadas das competições temos mais liberdade gastronómica e podemos cometer alguns exageros como qualquer pessoa. O mais complicado são as fases pré-competitivas que exigem algumas restrições. Aliando isso ao desgaste físico e psicológico propício destas fases torna-se complicado de gerir.
JN – Quantas dias, quantas horas treina por semana?
LV – Treino seis dias por semana, 1h/1h15 no máximo por dia.
JN – Luís quando se fala de culturistas normalmente vem à conversa casos de exagero, por exemplo um bem recente do brasileiro Romário Alves que injectou álcool e óleo nos músculos das costas e braços para ser igual ao super-herói Hulk. E como sabe esta história não terminou bem. Este é um dos riscos de um culturista o querer mais e para isso arriscar mesmo a saúde e própria vida?
LV – Eu não considero esse tipo de indivíduos culturistas mas sim doentes mentais. A culpa nem é deles mas sim da comunicação social que os divulga como tal e faz as pessoas mais leigas na matéria associarem “aquilo” a culturismo.
Quanto a substâncias dopantes, todos os desportos têm atletas que usam e outros que não, tal como em qualquer outra modalidade somos sujeitos ao controlo anti-doping de forma aleatória e em provas internacionais todos os três primeiros classificados são controlados no final das provas e alguns escolhidos de forma aleatória são controlados ainda antes de subirem a palco.
O facto de a população em geral associar o culturismo ao uso desse tipo de substâncias prende-se com o facto de nós carregarmos o nosso desporto connosco e não passamos propriamente despercebidos na rua enquanto um ciclista ou futebolista, que não seja da elite mundial, não é reconhecido e ninguém vai perceber se ele é atleta ou não. O mesmo não se verifica connosco, e o facto de ter os músculos mais desenvolvidos pode levar a esse tipo de preconceito.
JN – Há muitos culturistas no nosso país?
LV – Sim, há muitos culturistas e cada vez mais têm aparecido. É um desporto em claro crescimento quer a nível nacional, quer mundial.
JN – E mundiais? Para quando uma participação do Luís num mundial?
LV – Eu gosto de dar um passo de cada vez. Logicamente que ambiciono ir a um mundial e certamente já estive mais longe de tonar esse sonho realidade. Quero neste momento centrar o foco em tonar-me melhor do que aquilo que sou hoje para pensar mais alto e quando voltar a competir fora de portas ter uma palavra a dizer nos lugares cimeiros da classificação geral. Vou fazer uma avaliação e tomar decisões, planificando a próxima época desportiva e consoante a evolução e o possível surgimento de alguns apoios quem sabe não seja já em Dezembro de 2016.