Sindicalismo Séc. XXI
Não é fácil manter a liberdade de pensamento. Se não é o entorno em que nos encontramos, somos nós que impomos limites ao que devemos dizer ou pensar. É suposto que nos meses de verão se escreva sobre férias, espaços “in” ou destinos paradisíacos que povoam os sonhos de qualquer ocidental. Embora seja verão, o certo é que, este ano, quase tudo é atípico. Lá fora sopra o vento e as cortinas agitam-se. Já começaram a fechar as portadas, sendo eu o único que quer resistir a essa tentação porque, ainda ontem, o calor asfixiava a esta hora. De resto, iremos continuar a ouvir falar das universidades de verão, dos festivais, da crise grega e das rotinas comezinhas. É provável que, com eleições marcadas para outubro, estas férias sejam marcadas por alguns duelos políticos, não ficando os sindicatos alheios a esta esgrima, embora possam atuar em palcos secundários tentando demostrar que são alheios a tais jogos quando efetivamente não o são. Fazendo jus às palavras da ministra da justiça, o desfile já se iniciou com o corte de relações entre o seu ministério e as associações de juízes e magistrados do MP. Paula Teixeira da Cruz vai mais longe e afirma que por detrás disto está a necessidade de afirmação das novas lideranças e o período eleitoral que se aproxima.
Mesmo que esta formulação não seja correta, o certo é que por detrás dela está o estereótipo de que sindicatos e associações se movimentam no eixo do poder e se submetem aos interesses partidários conforme a ideologia que professam (e neste caso, professar é usado propositada e conscientemente).Este poderá ser o primeiro obstáculo a remover para que os sindicatos do séc. XXI sejam organizações credíveis capazes de galvanizar múltiplas tendências e formas de configurar o mundo. A perspetiva ideológica e as linhas previamente estabelecidas não conseguem corresponder às mudanças que a própria sociedade gera. A engrenagem sindical, passados alguns anos, torna.se pesada e incapaz de dar as respostas necessárias.
Um segundo aspeto poderá ser a complexidade do sistema. O pensamento moderno foi configurado para se convencer de que a eficácia depende da organização e da estratificação piramidal, sendo necessária uma liderança forte. O princípio até pode estar correto, o problema está quando se procede à analogia entre uma liderança sindical e uma liderança empresarial; ou seja, desde a revolução industrial, quando atinge a liderança, à falta de um modelo, o sindicalista projeta na sua ação a forma de estar do elemento que combate: o patrão e tudo o que este representa. Distanciamento das bases, fixação ideológica, dificuldade em entender o ponto de vista do outro parecem caraterizar o modelo de orientação das organizações sindicais que vão perdendo a sua essência à medida que a assunção do “eu” se sobrepõe aos valores e aos interesses dos que dizem defender. Poder-se-iam ainda referir os que se aproveitam desta posição para volitar em torno do poder e, de um momento para o outro, se silenciam em troco seja do que for.
É legítimo que, num regime democrático, os trabalhadores se organizem em torno dos partidos e se identifiquem com os mesmos de forma clara e inequívoca e, por isso mesmo, há organizações de trabalhadores que assumem na própria denominação a ideologia partilhada. Mas, em nome da coerência, também os sindicatos deveriam entender que, moral ética e objetivamente, deveriam assumir a linha ideológica em que radicam a sua ação mesmo quando assumem a designação de “independentes”.
Um terceiro ponto diz respeito à massificação verificada em décadas anteriores. Para ter dimensão e poder reivindicativo, as organizações aumentaram o número de sindicalizados descurando a capacidade de resposta e esquecendo que cada profissional é um profissional e cada caso um caso. Por isso, deixou de se atender à situação específica, passando a problematizar-se questões gerais e, de certo modo, comuns a um elevado número de representados. No entanto, esta regra contradiz o básico do que se espera de uma relação entre o sindicato e o profissional, pois é sabido que quem procura estas organizações não o faz a pensar na classe mas sim no seu problema específico que, por mais semelhante que seja ao dos outros é sempre entendido numa perspetiva pessoal por quem o vive.
Em quarto lugar está a rotina. O discurso é sempre o mesmo e o plano de atividades mais parece um eterno retorno: em março manchete na comunicação social, em maio uma manifestação e antes do um ou dois comunicados, ou seja, há mais de trinta anos que as situações se repetem e por isso, salvo honrosas exceções, já nem o ímpeto grevista de algumas centrais consegue mobilizar seja quem for, mesmo que marquem as greves para a sexta-feira. O quadro piora e a opinião pública não tolera quando se vai sabendo de que há sindicatos que até pagam esses dias aos trabalhadores que aderem dado existir um fundo criado para o efeito. Pode estar a faltar um gabinete de imagem e comunicação em algumas situações, no entanto e, sobretudo, o que faltará mesmo é coerência.
Então o que resta? Simplesmente fazer tudo ao contrário daquilo que aqui foi escrito. Boas férias.
Por: Raúl Gomes