O recomeço
Agosto está a chegar ao fim e com ele os parcos dias de férias que muitos de nós, de um modo ou de outro, usufruímos com o direito próprio que nos assiste.
Quando ainda era estudante, chamávamos Férias Grandes às férias de final de ano. De facto, era o tempo mais desejado para quem tinha passado um ano letivo agarrado aos livros, sujeito a um horário indesejável que obrigava muitos alunos a levantar quando o sol ainda andava por bandas do oriente longínquo, sujeitos a professores mais ou menos exigentes e a quem tínhamos de prestar contas regularmente para podermos usufruir regaladamente das cobiçadas Férias Grandes. Hoje constatamos que as coisas mudaram bastante.
As férias de verão são para todos o fim e o recomeço de um tempo novo. Claro que me refiro a quem tem férias no verão, pois há quem as tenha repartidas ou as queira gozar no inverno. Seja como for, férias são sempre férias, tempo de descanso e tempo de carregar energias para uma nova etapa.
Assim pensam os estudantes, mas igualmente pensam todos os outros que tentam tirar o máximo proveito dessas semanas de lazer, vivenciando experiências diferentes, saindo de uma rotina avassaladora e inibidora de novos projetos. Agosto é assim, visto como o fim de um tempo morto e o renascer de novas perspetivas, de uma nova etapa, na qual todos apostamos alguma coisa de positivo. É certo que o ânimo é diferente e a vontade de trabalhar também, mas não é menos verdade que muitos gostariam de continuar ad eternum em tempo de férias. Obviamente que isto não se coaduna com as exigências de um país como o nosso onde todos devem contribuir com o seu trabalho e o seu suor para dinamizar a economia nacional. Mas o que estou eu a dizer? Todos? Era bom que assim fosse. Não é, infelizmente.
Inseridos neste pacote de gente que se dá ao desfruto de um tempo de férias, estão os políticos, especialmente os deputados, os membros do governo e o presidente da República. As melhores e as mais recatadas praias, em Portugal ou no estrangeiro, são procuradas por eles para aí passarem o mês de agosto. Meu adorado mês de agosto!
Longe dos holofotes da comunicação social, mas não tanto das revistas sociais e dos paparazzi, eles por lá vão gozando as suas férias ao lado da família que agradece esse pouco tempo que lhe dispensam. Falar de política, nem pensar. Reflexões, possivelmente muitas. É que o recomeço é logo em setembro!
Entretanto, e como agosto também é mês de festas populares, todas as localidades se preparam para receber os que em férias, vão querer passar por lá algumas horas, fazendo jus ao santo padroeiro ou a algum artista mais conotado que, numa cálida noite de verão, evidenciará os seus dotes de cantoria. E os políticos, alguns, também fazem questão de por aí aparecer, realçando a importância que a terra natal sempre tem para os filhos da terra. É que as eleições estão à porta!
Acabadas as férias e o mês de agosto, lá regressam todos à azáfama diária, mas com energia renovada e vontade de fazer mais e melhor. E assestadas as baterias para objectivos claros, aí estão os políticos e os seus partidos, reanimados e com discurso novo e limado para exibir na mais dura prova de fogo que terão de enfrentar, as eleições legislativas. É um recomeço de muita entrega, de muita promessa, de muita correria, na tentativa de ganhar o mais possível de votos. Eles tudo farão para vencer. Tudo prometerão para convencer os indecisos e não só. Preparam-se nas férias para este momento. Mas e quem nas férias se limitou a descansar e a carregar energias para um tempo novo, o que pensará perante este cenário? Ninguém se prepara numas férias para ouvir discursos de políticos e promessas gastas para tempos novos que afinal nada terão de novo. Recomeçar é efetivamente recomeçar e não continuar. Se pelo menos este recomeço político fosse mesmo um recomeço de esperança, então todos estaríamos motivados para os discursos que aí vêm, sejam eles do governo ou da oposição. Afinal, é tão simples ser da oposição! Nunca há um recomeço!
Por Luís Ferreira