Estendal
Lembram-se? Dos estendais de roupa, obras-primas das lavadeiras a permitirem aos curiosos olharem as usanças íntimas dos seus e das suas clientes. Expurgadas da sujidade mercê das vigorosas mãos que as torciam e retorciam executando uma receita cujos ingredientes envolviam muita água, sabão azul ou macaco, lixívia, soda cáustica, raspas de citrinos e até flores de laranjeira, barrela a preceito, depois as peças iam corar para depois serem secas nos estendais.
Manda o recato não nomear avós babados hoje que nos ardores da mocidade participavam na algazarra contida ao enumerarmos as volumetrias firmes e adiposas das utilizadoras daqueles aconchegos dos corpos femininos de modo a torna-los mais firmes, mais ondeantes, mais voluptuosos, especialmente no período estival a suscitar tecidos leves, esvoaçantes uns, colados ao corpo outros.
Desapareceram os lavadeiras, bem mereciam pelo menos um livro a retratá-las, dissiparam-se os estendais, o progresso técnico substituiu-os transformando o País num enorme estendal dando à coscuvilhice expressão de totalidade saindo os segredos das pessoas nas redes sociais, triturando tudo e todos. No referente às televisões a exposição da roupa sem ser lavada obedece a critérios cuidadosamente programados nos quais os e as cascas grossa entrelaçam as línguas no intervalo de gente fina perorar.
Os políticos e aspirantes tentam cavalgar a onda das redes sociais, honrosa excepção a do professor Marcelo, expondo-se a todo o género de comentários e dichotes. A rede das lavadeiras de boa língua e afiadíssima circunscrevia-se ao seu meio, adjacências e em cochicho às senhoras suas freguesas. Pessoalmente nada tenho contra o Facebook e veios comunicacionais semelhantes, sei quão úteis podem ser, apesar disso não sou freguês, basta ver o estenderete de bazófias, vaidades, parolices, ridicularias, até misérias de vários géneros para não ser freguês. As comadres zangadas do passado falavam mal, mas falavam bem, agora nem os prós pronunciam em conformidade.
Nesta altura o estendal revela os escolhidos pelo estado-maior de cada partido a serem deputados, infelizmente, para os cidadãos, sabe-se muito pouco acerca da preparação das listas que até ao último momento sofrem acertos e desacertos tão custosos como o de dar brancura a camisa surrada de lagareiro.
No passado dia 2 de Junho estive meia dúzia de horas em Bragança, num breve afiar de conversa disse a duas pessoas ter indicação fiável de Luís Montenegro poder encabeçar a lista da coligação por Bragança. Seguramente, quem ouviu as minhas palavras pensará de duas uma coisa: ou tenho a pretensão de beber do fino, ou acometido de loucura mansa julgo-me pitonisa sem o talento delas, pois os seus oráculos nunca as colocavam em falso. Nem uma coisa, nem outra. Não é fácil expor, nem tenho espaço capaz de forma a explicar o dito por mim, limito-me a trazer em meu socorro a afirmação de Cervantes – não acredito em bruxas, mas que as há, há – sem embargo de aceitar o desafio de participar em conversa amena sobre o facto de Montenegro ter rumado até Aveiro.
Em Santarém o interesse de dois dirigentes distritais levou à escolha de Teresa Leal Coelho até agora deputada a representar o Porto e vereadora na Câmara Municipal de Lisboa, quando tudo indicava ser Marques Guedes o primeiro da lista. A carambola das listas, de todas as listas, mesmo de partidos inexistentes fora do quadro eleitoral provoca contorções e escorrimentos furiosos, tal como os panos higiénicos provocavam às senhoras especialistas no desencardir roupa de múltiplas qualidades e proveniências. Os panos pingados de sangue obrigavam a fechar os olhos ou não fossem eles indiciadores de nós próprios, aferrados e afoitos no agarrar a vara do poder, nem que para isso seja necessário fazer toda a casta de sandices. Se queres ver o vilão…
Por Armando Fernandes