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Memórias da Calçada de Alpajares

Memórias da Calçada de Alpajares
  • 6 de Março de 2015, 00:59

Os quadros de lousa permanecem nas paredes, mas as carteiras deram lugar a placards com fotografias e vídeos que dão a conhecer a Calçada de Alpajares, classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1977. Esta calçada romano-medieval tem cerca de um quilómetro em lages de xisto e de quartzitos.
A antiga escola, que deixou de ter alunos no final do ano passado, tem agora uma nova missão: explicar a história da Calçada de Alpajares, um ícone turístico do concelho de Freixo de Espada à Cinta nas imediações da aldeia de Poiares.
Este é mais um núcleo museológico criado pelo Museu do Douro, em parceria com o Município de Freixo de Espada à Cinta, e foi anteontem inaugurado, seguindo-se uma caminhada pela calçada.
Em Poiares são muitas as memórias dos tempos em que esta calçada era utilizada diariamente para chegar a Barca d`Alva.
“As pessoas que trabalham lá naqueles moinhos vinham todos os dias buscar aqui o pão, depois vinham trazer as farinhas, depois havia aqui o posto da guarda-fiscal onde vinham tirar as guias, porque como faz fronteira com Espanha não podia ir sem a guia. E era assim. A minha mãe ainda foi crivadeira, angariava aqui o pão para esses moleiros, nós éramos seis filhos, gente humilde, e era assim a vida por aqui”, conta António Abel Roxo, mais conhecido em Poiares por “Toneco”.
Laura Manso também tem memórias da calçada de antigamente. “Há lá nas fragas uma ferradura e um gato e diziam-nos que estavam lá uma tecedeira, eu ainda fui lá pôr a cabeça e a verdade é que havia lá um certo rugido. Havia lá também uma rocha que diziam que só se casava a gente quando batesse no cimo, eu também me lá meti, mas ainda me casei mais cedo”, graceja a habitante de Freixo.
Também Mário Quintã, hoje com 90 anos, confessa que desceu e subiu muitas vezes a calçada. “Naquela altura não me custava, que ainda era novo”, conta.
A lenda de construção desta calçada também é conhecida em Poiares. Muitos ainda a conhecem como a “Calçada do Diabo”. Manuel Mesquita recorda a lenda que ouviu aos antigos e que também está escrita em livros.

Três olhares sobre Alpajares

“Foi feita numa só noite, mas não antes da terceira cantada do galo. Segundo consta na lenda havia um indivíduo que queria passar a ribeira numa determinada noite e não havia ponte e depois ele estava com pressa e aparece-lhe o diabo que lhe disse que o ajudava a passar para o outro lado se lhe desse a alma e ele acedeu. Então lá começaram a fazer a calçada, mas não a conseguiu acabar antes da terceira cantada do galo e então ficou livre do diabo”, conta Manuel Mesquita.
Neste centro interpretativo surgem três olhares sobre Alpajares, o romano, o medieval e o árabe.
“Alpajares tem um prefixo árabe que até hoje permaneceu, os romanos por sua vez deixaram em toda esta zona a sua marca, no museu de Freixo temos moeda romana encontrada aqui, e depois temos a parte medieval. Todas estas civilizações se foram substituindo umas às outras e a calçada de Alpajares é um caminho fronteiro ao Douro que vem ligar as duas zonas de povoamento que existiam na altura”, realça o técnico do Município de Freixo, Jorge Duarte.
Este é um dos mais belos percursos do Douro que tem contribuído para dar movimento a Poiares. O presidente da Junta de Freguesia, Rui Portela, espera que a partir de agora, com a recuperação do espólio que chegou a estar em Tabuaço, o número de visitantes seja ainda maior.
“Em Tabuaço não lhes diria nada, mas para Poiares e para o concelho de Freixo de Espada à Cinta a Calçada de Alpajares tem sido um ponto de turismo. As pessoas procuram a paisagem, os caminhos que os levam à calçada. Para nós ter aqui o museu é um orgulho. Estou convencido que só por este museu estar aqui virão mais pessoas a Poiares”, sublinha o autarca.
O percurso de Alpajares, em pleno Parque Natural do Douro Internacional, está envolto em geologia, flora e vegetação, fauna e património cultural. Já há alguns anos o Município de Freixo de Espada à Cinta organiza percursos pedestres pela calçada com cerca de 12 quilómetros.

Destaque
Museu do Douro cria núcleo museológico na aldeia de Poiares em colaboração com o Município de Freixo

Vozes
António Roxo
78 anos
“Passei lá muitas vezes, aquilo está totalmente diferente agora. Antes havia as crivadeiras que angariavam aqui o pão, depois as pessoas que trabalham lá naqueles moinhos vinham todos os dias buscar o pão e trazer a farinha, e vinham pela calçada”.

Manuel Mesquita
78 anos
“Antigamente aquela zona da calçada era habitada. Estão lá duas sepulturas, está lá uma capela, estava lá um cemitério, e aqui há anos ainda havia lá telhas, que eram mais grossas do que a telha de agora”.

Laura Manso
73 anos
“Durante três anos passei todos os dias naquela calçada, porque andava a fazer o correio de Barca D`Alva para aqui. Este museu está muito bem e é importante para a História”.

Mário Quintã
90 anos
“Foi uma obra muito bonita. Além de ficarmos sem as crianças aqui, foi bem que fizessem aqui uma obra para que Poiares nunca se esqueça. Aqui vêem o museu e depois vão à calçada, que é um caminho muito bonito”.

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